Há poucos dias, o SharePoint começou a aceitar páginas HTML. Já contamos aqui: um formato novo que o Copilot escreve de uma vez, trancado num iframe que não sabe quem está olhando e que mostra os dados de uma lista sem poder mexer neles. Um visualizador. Útil, mas um visualizador.
Enquanto isso, do outro lado do Microsoft 365, o Copilot Cowork ganhou uma skill que joga em outra liga. Ela se chama App, está em preview dentro do programa Frontier e não gera páginas. Gera aplicativos. Daqueles que leem a sua lista do SharePoint, mostram o que está em risco e, quando você muda um dado, gravam de volta na lista.
A foto começou a se mexer.
Da lista ao app em três prompts
A melhor demonstração pública até agora é de Reza Dorrani, um dos criadores de conteúdo mais conhecidos do mundo Power Platform. Ele parte de uma lista do SharePoint com um portfólio de projetos: responsável, área, status, saúde, orçamento. Pede ao Cowork uma "central de comando de entrega de projetos" com indicadores no topo, saúde, avanço e orçamento versus gasto, numa tela limpa para executivos.
O Cowork aciona a skill e, alguns minutos depois, devolve um link com o app funcionando sobre os dados reais. Segundo prompt: destacar os projetos em risco, adicionar busca, filtros por responsável, área, status e saúde, e uma visão de detalhe. Terceiro prompt: permitir criar e editar projetos. Reza muda a saúde de um projeto para "no caminho", salva, e o projeto some da seção de alertas. A alteração já está na lista.
Ninguém escreveu uma linha de código. Mas o código existe.
Por dentro: React, um config.json e uma regra
Isso não é HTML estático. O Cowork gera um projeto React completo e deixa ver o código-fonte. Há um config.json com o ID do app, o ambiente onde ele foi criado e a conexão com a lista do SharePoint. A conexão passa pelos conectores da Power Platform, mais de 1.500, então a fonte poderia ser Dataverse, SQL ou Excel em vez de uma lista.
A regra: dentro do Cowork, esse código é somente leitura. Dá para olhar, não para mexer. Toda alteração passa por um prompt.
A página HTML deixa você olhar a lista. O app deixa você mudá-la.
O motor tem nome: Copilot Managed Runtime
O Cowork é só uma das portas. Esses apps rodam no Copilot Managed Runtime, também em preview, que tem três entradas: o Cowork para quem quer pedir o app numa conversa, o Copilot Studio para makers que querem controlar melhor cada etapa, e um SDK com CLI próprio (o comando ms) para desenvolvedores que preferem VS Code e Git.
As três geram o mesmo artefato: um app hospedado pela Microsoft, com autenticação do Entra ID embutida, que herda as políticas do tenant e aparece no inventário do administrador. O usuário final encontra todos num mesmo portal, managedapps.cloud.microsoft.
Para quem constrói portais, um detalhe importante: esses apps não vivem dentro de uma página do SharePoint. Vivem no próprio runtime. Leem e gravam no SharePoint, mas não são SharePoint.
Três formas de mostrar uma lista
| Página HTML | App no Cowork | Web part SPFx | |
|---|---|---|---|
| Quem cria | Qualquer autor, ou o Copilot | Qualquer usuário, com o Cowork | Um desenvolvedor |
| Dados | Lista, Excel, CSV, só leitura | Mais de 1.500 conectores, leitura e escrita | Qualquer API, leitura e escrita |
| Sabe quem está usando | Não | Sim, com o Entra ID | Sim, com o contexto do SharePoint |
| Onde vive | Site Pages, dentro de um iframe | Runtime próprio, fora do SharePoint | Dentro da página do SharePoint |
| O código | Não há código para manter | React, somente leitura no Cowork | Seu, no seu repositório |
| Licença para usar | Nenhuma | Power Apps Premium ou créditos | Nenhuma adicional |
| Maturidade | Preview, GA entre novembro e dezembro | Preview Frontier | Disponível há anos |
A parte que não aparece na demo: o administrador
O mais interessante do vídeo não é o app. São os últimos quatro minutos.
No centro de administração do Microsoft 365 aparece uma seção nova, Aplicativos, com o inventário de todos os apps gerenciados do tenant: quem criou, quando, se está ativo, quantos usuários diários tem. Para cada app, o administrador vê quais conectores ele usa, configura alertas sobre taxa de abertura bem-sucedida, tempo de carregamento e quantidade de inicializações, e pode bloqueá-lo ou excluí-lo.
Há também uma linha de base de conectores permitidos que a Microsoft define por padrão e o administrador pode restringir, uma política para decidir se os apps são compartilhados com toda a organização ou só com pessoas e grupos escolhidos, e uma política de segurança de conteúdo que controla onde o app pode ser incorporado e quais recursos externos ele carrega.
E aqui está o detalhe que vale o artigo: cada app é construído no ambiente de desenvolvedor pessoal de quem o cria, usando o roteamento de ambientes da Power Platform. Se o tenant não tem uma regra de roteamento configurada, a Microsoft aplica uma padrão.
Tradução: numa empresa onde ninguém nunca abriu o centro de administração da Power Platform, no dia em que o Frontier for ativado cada pessoa vai ter a sua própria oficina para fabricar apps, com a configuração que a Microsoft escolheu por ela.
As letras miúdas
- Usar o app tem custo. Quem executa precisa de Power Apps Premium ou de Copilot Credits. Com créditos, cada inicialização é cobrada e cada chamada de API consome 0,1 crédito. Sem créditos suficientes, o usuário recebe um aviso e é bloqueado depois de 20 operações ou cinco minutos de uso. E construir o app é uma tarefa do Cowork, que tem o seu próprio taxímetro.
- O código não sai fácil do Cowork. O SDK trabalha com Git, num repositório gerenciado pela plataforma ou num próprio, desde que pertença a uma organização no GitHub Enterprise Cloud. Azure DevOps não é suportado. O que a documentação ainda não esclarece é se um app nascido no Cowork pode ser levado para esse fluxo para continuar sendo editado com código. Antes de prometer isso a um cliente, é preciso testar.
- O link é uma chave. A Microsoft avisa que quem recebe o link pode abrir e usar o app, incluindo todos os seus dados. Compartilhar um app é abrir uma porta para a lista.
- É preview. Frontier significa que os recursos podem mudar, ou não chegar à disponibilidade geral do jeito que aparecem hoje.
- O app é tão bom quanto a lista. Uma lista com texto livre nas colunas de status e saúde gera um app bonito que filtra mal. A arquitetura da informação continua sendo trabalho humano.
Onde se encaixa
Para o protótipo de uma tarde, o painel de um time ou o app de acompanhamento que hoje vive num Excel que circula por e-mail, é difícil pensar em algo mais rápido. Nesse terreno ele concorre direto com o Power Apps canvas, e faz isso conversando.
Para o que precisa viver dentro do portal, se combinar com outras web parts, durar anos com controle de versão ou se integrar a sistemas sem conector, o SPFx continua sendo a resposta. Por arquitetura, não por costume.
O ponto
Em poucas semanas, a Microsoft mostrou duas maneiras de o Copilot construir coisas sobre os seus dados do SharePoint. As páginas HTML olham. Os apps do Cowork olham, gravam e sabem quem está do outro lado. A distância entre os dois é a mesma que existe entre um relatório e um sistema.
E sistemas, mesmo nascendo de um prompt, precisam de dono, orçamento e regras. A Microsoft entregou as ferramentas de governança no mesmo dia que o recurso. O que não vem incluído é a decisão de usá-las.
Sua organização vai ativar o Frontier ou já está testando Apps no Cowork? Vamos conversar em macareno.net antes que o inventário se encha sozinho.
Fontes
- What's new in Copilot Cowork, Microsoft Learn
- Use Copilot Cowork: Build apps with the App skill, Microsoft Learn
- What is Copilot Managed Runtime (preview), Microsoft Learn
- Copilot Managed Runtime SDK overview (preview), Microsoft Learn
- Microsoft Copilot Cowork Can Now Build REAL Apps, Reza Dorrani (YouTube)
