Em fevereiro de 2021 a Microsoft apresentou o Viva como a "plataforma de experiência do colaborador" que ia redefinir o trabalho híbrido. Cinco anos e meio depois, a pergunta é incômoda, mas justa: alguém usa? E se a resposta for "alguns", o que sobra da suíte quando tiramos o marketing?
O obituário em partes
O Viva não morreu de uma vez. Está sendo desmontado peça por peça, e cada peça vai embora com uma explicação diferente.
Viva Topics foi a primeira. O desenvolvimento foi congelado em fevereiro de 2024 e o produto aposentado em fevereiro de 2025. A promessa de "gestão do conhecimento com IA" ficou nas mãos do Copilot. Detalhe nada pequeno: o Topics custava cerca de 4 dólares por usuário por mês; o Copilot, 30. As prioridades se explicam sozinhas.
Viva Goals seguiu o mesmo caminho. A Microsoft comprou a Ally.io em 2021, lançou o produto em 2022, parou o desenvolvimento em dezembro de 2024 e desligou tudo em 31 de dezembro de 2025. Aqui a empresa foi incomumente honesta: reconheceu que a adoção dentro da base de clientes da suíte simplesmente não cresceu. Tradução: OKRs numa ferramenta não funcionam se a liderança não acredita em OKRs.
Viva Connections não foi aposentado, foi absorvido. Desde junho de 2026 o app do Teams passou a se chamar app do SharePoint. Que é o que sempre foi, no fundo: a home site do SharePoint com dashboard e feed, vestida com outro nome.
Viva Learning está perdendo conteúdo próprio. A Microsoft retirou 161 módulos de treinamento de Microsoft 365 do catálogo em setembro de 2026, e os relatórios de uso saem do centro de administração entre outubro e novembro. Quando o fabricante tira o próprio conteúdo da própria plataforma de aprendizado, o sinal é bem claro.
E um dado que fala mais que qualquer comunicado: o Handsontek, um dos blogs que durante quase quatro anos publicou o resumo mensal de novidades do Viva, encerrou a série em maio de 2026 porque as novidades ficaram escassas e o produto perdeu fôlego. Quando até os cronistas se cansam, não sobra muito para contar.
O que ainda respira
Seria injusto declarar a morte total. Há três peças com pulso:
Viva Engage continua recebendo investimento: comunidades e Storylines integradas ao Teams, rastreamento de entrega de comunicados, controles de administração. É a herdeira do Yammer e, curiosamente, a mais viva de todas, justamente porque cada vez se parece menos com "Viva" e mais com uma funcionalidade do Teams.
Viva Glint mantém seu nicho em RH: pesquisas de clima, mapas de calor, exportação para PowerPoint. É um produto com comprador claro (a área de pessoas) e uma função concreta. Isso, nesta suíte, já é raridade.
Viva Insights é o caso mais interessante. Quase todas as novidades recentes não têm a ver com o bem-estar do colaborador, e sim com medir a adoção do Copilot: relatórios diários no Power BI, métricas de agentes, snapshots de uso. A Microsoft inclusive adicionou os planos de Workplace Analytics dentro da licença do Microsoft 365 Copilot. O Insights deixou de ser uma ferramenta de produtividade pessoal para virar o painel com que a empresa justifica quanto pagou pelo Copilot.
Então, o que é o Viva hoje?
O Viva hoje é menos uma suíte e mais uma sala de transplantes. As partes úteis estão sendo transplantadas para outros corpos:
- A intranet volta para o SharePoint.
- A comunicação interna se funde com o Teams.
- O conhecimento fica com o Copilot.
- A analítica passa a medir o Copilot.
- O que não encontrou receptor, é desligado.
O nome Viva sobrevive nas licenças e em algumas telas, mas a estratégia já não gira em torno da "experiência do colaborador". Gira em torno do Copilot, e o Viva é útil na medida em que alimenta ou mede o Copilot.
O futuro provável
Não precisa de bola de cristal, basta ler o padrão dos últimos dois anos:
- Viva como marca guarda-chuva vai continuar se diluindo. Não seria estranho ver mais renomeações do tipo "Viva X agora faz parte do Teams/SharePoint/Copilot".
- Insights se consolida como Copilot Analytics. O valor está em demonstrar o ROI da IA, não em lembrar o usuário de fazer uma pausa entre reuniões.
- Engage e Glint sobrevivem porque têm dono claro dentro da empresa (comunicação interna e RH) e um problema concreto que resolvem.
- Learning fica na zona de risco. Sem conteúdo próprio e com relatórios cortados, seu papel se reduz a agregador de LMS de terceiros.
O que fazer se a sua empresa está pagando o Viva
Para empresas na América Latina a recomendação é pragmática:
- Não compre a suíte completa por inércia. Avalie módulo por módulo segundo o uso real, não segundo a apresentação comercial de três anos atrás.
- Se você investiu no Viva Connections, investiu no SharePoint. Esse trabalho (home site, dashboard, cards) continua válido; muda o nome, não o ativo.
- Se você está implementando o Copilot, olhe o Insights com outros olhos. Provavelmente parte da analítica já está incluída na licença (e o dashboard exige um mínimo de 50 licenças).
- Desconfie de qualquer projeto que dependa de um único módulo do Viva sem plano B. Topics e Goals já mostraram que o aviso prévio pode ser de doze meses.
Conclusão
O Viva está vivo? Partes dele, sim. A ideia original de uma plataforma unificada de experiência do colaborador, não. A Microsoft não matou o Viva: simplesmente encontrou algo que a interessa mais, cobra mais por usuário e rende manchetes melhores. O Viva hoje funciona como infraestrutura de suporte para o Copilot, e seu futuro depende de quanto ele serve a esse projeto.
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Fontes
- Microsoft Kills Viva Goals (Office 365 for IT Pros)
- Microsoft Kills Viva Topics to Focus on Copilot (Office 365 for IT Pros)
- Microsoft 365 Copilot Gets Viva Insights Service Plans (Office 365 for IT Pros)
- What's new for Microsoft Viva, May 2026 (Handsontek)
- Viva Connections app renamed SharePoint app (SuperSimple365)
- MC1459129: Viva Learning retirement of Microsoft 365 training content (Microsoft Message Center)
- MC1477996: Retirement of Viva Insights and Viva Learning usage reports (Microsoft Message Center)
