Existe um padrão que se repete toda vez que alguém menciona o Copilot numa conversa de TI: a risadinha. "Ah, o Clippy com esteroides." "O que copia o ChatGPT atrasado e mal." No Capterra e no G2, as reviews de 2026 repetem variações do mesmo golpe: "vejo como uma cópia do ChatGPT", "não está à altura do Claude ou do Cursor para código", "às vezes as respostas parecem desalinhadas com o que perguntei". Segundo os próprios dados da Microsoft, apenas 4% dos usuários com licença o usa de forma ativa.
E, no entanto, enquanto essa reputação se consolidava em fóruns e reviews, dentro de Redmond acontecia outra coisa completamente diferente. O Copilot deixou de depender de um único provedor de IA. Aprendeu a transformar uma tabela do Excel numa aplicação clicável dentro do próprio PowerPoint. Seus agentes começaram a ter identidade própria no diretório da empresa, como se fossem mais um colaborador. Nada disso encaixou na fama que o produto já carregava.
Este é um artigo sobre esse descompasso. Sobre um produto que ainda parece o patinho feio na superfície enquanto, por baixo, já estão nascendo as penas de cisne.
O patinho que todo mundo aponta
A má fama do Copilot não surgiu do nada. Nasceu fragmentado: um assistente para o Word, outro para o Teams, outro para código, um para consumidores e outro com nome quase idêntico para empresas. Ninguém sabia direito qual abrir, e a confusão entre "Copilot" e "Microsoft 365 Copilot" foi, por anos, motivo recorrente de reclamação entre administradores de TI.
A isso se somou o problema do tier gratuito. Durante 2025 e boa parte de 2026, a versão sem custo funcionou como uma demo permanente: suficiente para mostrar o conceito, insuficiente para substituir qualquer coisa. Em abril de 2026, a Microsoft limitou diretamente o Copilot Chat gratuito dentro do Word e do Excel. Em agosto, retirou o Deep Research para consumidores. A sensação de "isso é isca para o pago" ficou gravada na experiência de milhões de usuários que testaram a versão gratuita e tiraram suas próprias conclusões ali mesmo.
A primeira impressão se formou com a versão 2023-2024 do produto. A versão 2026 é, funcionalmente, outra coisa. Mas a reputação não se atualiza no mesmo ritmo do software.
É o problema clássico de qualquer patinho feio: julgam pela aparência de quando nasceu, não pelo que está se tornando.
O dia em que parou de fingir que só existia a OpenAI
Durante anos, usar Copilot foi sinônimo de usar GPT. Não havia outra opção, nem se discutia. Isso mudou em 2026, e é provavelmente a virada mais subestimada de toda a história.
Hoje, dentro da mesma licença do Microsoft 365 Copilot, qualquer usuário pode escolher entre GPT (OpenAI) e Claude (Anthropic) no Copilot Chat, Excel, Word, PowerPoint, Copilot Studio e no agente Researcher. Sem pagar um centavo a mais, sem instalar nada além. A escolha fica nas mãos do usuário, conforme o tipo de tarefa.
Isso não é um detalhe cosmético. É uma empresa que por anos vendeu "tudo em um ecossistema fechado" admitindo, na prática, que a melhor ferramenta para o usuário nem sempre é a própria. Existe um detalhe importante que pouca gente lê até o final: os modelos Claude são processados fora da infraestrutura gerenciada diretamente pela Microsoft, com dados transferidos para a Anthropic, e na União Europeia, EFTA e Reino Unido o administrador precisa ativar manualmente. Não é só uma opção de menu, tem implicações reais de governança de dados que qualquer equipe de compliance deveria revisar antes de habilitar.
Mas a mensagem de fundo importa mais que o detalhe técnico: o patinho feio parou de fingir que conseguia fazer tudo sozinho.
Quando o PowerPoint virou aplicativo
Em agosto de 2026, o Copilot no PowerPoint ganhou uma skill que transforma tabelas, planilhas do Excel e até conteúdo não numérico em slides interativos: com filtros, botões e navegação clicável, funcionando no modo de edição normal, sem precisar iniciar a apresentação. Uma tabela de headcount vira um painel filtrável por ano e departamento. Uma timeline vira uma navegação por clique. Tudo dentro do mesmo arquivo .pptx de sempre, sem código, sem plataformas novas.
(Já cobrimos isso em detalhe aqui, com exemplos concretos e comparação com o Power BI.)
Esse tipo de salto não combina com a caricatura de "o que copia o ChatGPT atrasado". É uma função que nenhum concorrente tinha, resolvendo um problema que qualquer um que monta decks corporativos reconhece na hora: o relatório que nasce velho assim que vira PDF.
Alguém novo no sistema
A parte mais difícil de explicar para quem ainda vê o Copilot como um chatbot com bom marketing é esta: ele deixou de ser só um assistente que sugere texto. Passou a ter agentes com identidade própria.
Em maio de 2026, a Microsoft lançou o Agent 365, uma plataforma para registrar e governar agentes de IA dentro do tenant. Um agente construído ali obtém sua própria identidade no Entra ID (não uma cópia delegada de quem o criou), aparece no diretório junto aos colaboradores humanos, pode ser mencionado no Teams, receber e-mails no Outlook e ser citado em páginas do SharePoint. O tenant admin aprova, audita e revoga como qualquer outra aplicação registrada.
Em paralelo, o Model Context Protocol (o padrão que a Anthropic doou para uma fundação neutra da Linux Foundation) chegou à disponibilidade geral no Copilot Studio e nos agentes declarativos do M365 Copilot, permitindo conectar o Copilot a sistemas externos sem conectores personalizados. E o novo tier AutoPilot trouxe o Microsoft Scout, um agente que cuida de agendas e faz acompanhamento de prazos em segundo plano, sem que ninguém peça a cada momento.
| Copilot 2023-2024 (a fama) | Copilot 2026 (os fatos) | |
|---|---|---|
| Modelo de IA | Só OpenAI, sem opção | GPT ou Claude, à escolha do usuário |
| Papel dos agentes | Sugere texto, espera instruções | Tem identidade própria no Entra ID, age sozinho |
| PowerPoint | Gera texto e imagens | Transforma dados em apps interativos |
| Integração externa | Conectores personalizados sob medida | MCP: padrão aberto, sem código |
| Tier gratuito | Porta de entrada generosa | Demo deliberadamente limitada |
Nada disso é o que as pessoas imaginam quando ouvem a palavra "Copilot" numa reunião. E esse é exatamente o ponto.
O ponto
O patinho feio do conto não muda de um dia para o outro. Muda enquanto ninguém olha, até que um dia alguém levanta os olhos e já não reconhece o que tem à frente. O Copilot está exatamente nesse ponto intermediário: ainda carrega a fama de 2023, mas já funciona com a substância de 2026.
Isso não significa que valha a pena para qualquer empresa comprar amanhã sem pensar (já discutimos isso aqui), nem que as críticas sobre qualidade de resposta tenham desaparecido de vez. Significa que julgar o produto de 2026 pela experiência que alguém teve em 2023 é, no mínimo, um erro de data.
A pergunta que vale a pena fazer não é se o Copilot vai virar cisne. A pergunta é quantas empresas vão continuar olhando para o patinho muito depois de as penas já terem mudado.
Se você quer acompanhar de perto esse tipo de virada antes que se torne óbvia, a newsletter da macareno.net chega toda semana com exatamente esse tipo de análise.
Fontes
- Microsoft 365 Copilot Reviews 2026 — Capterra
- Microsoft Copilot Reviews 2026 — G2
- Expanding model choice in Microsoft 365 Copilot — Microsoft 365 Blog
- Your First Teams-Native n8n Agent on Microsoft Agent 365 — Automation Labs
