Na primeira quinzena de outubro, meu feed virou uma vitrine de mágica. Alguém tinha clonado o Photoshop. Alguém tinha aberto o software da própria TV para ver para onde iam os dados. Um influenciador de IA com milhões de seguidores resumiu tudo em três palavras: "Software is done". O software tinha acabado.
Duas semanas depois, o mesmo feed estava cheio de prints de outra coisa: a IA começava a analisar um programa, parava no meio da frase e avisava que uma verificação de segurança tinha interrompido a resposta. Parecia que alguém tinha puxado a tomada.
Fui atrás do que aconteceu. A história é menos dramática do que as duas versões que circularam, e bem mais útil para quem trabalha com tecnologia numa empresa.
Duas semanas em que o software "morreu"
O protagonista se chama REA, sigla de Reverse Engineer Anything ("faça engenharia reversa de qualquer coisa"). Em 6 de outubro o projeto tinha menos de 10 mil estrelas no GitHub. No dia 12, passava de 100 mil, com mais de 30 mil em um único dia. Hoje passa de 370 mil.
Ao mesmo tempo, um desenvolvedor chamado Brandon Thomas publicou versões gratuitas e abertas do Photoshop e do Premiere, escritas do zero com IA, e poucos dias depois fez o mesmo com Word, Excel e PowerPoint. O motivo, segundo ele, era a raiva das multas de cancelamento da Adobe. Somando os dois casos, a narrativa estava pronta: qualquer programa pode ser copiado por uma IA em dias, logo ninguém mais vai pagar por software.
O que o REA fazia de verdade
Engenharia reversa é descobrir como um programa funciona sem ter acesso ao código-fonte, só ao produto pronto. É uma prática antiga e respeitável. Foi assim que nasceram os PCs compatíveis com o da IBM, nos anos 1980.
O REA não inventou nada disso. Ele é um servidor MCP, uma espécie de adaptador que conecta assistentes de IA como Claude Code, Codex ou Cursor a ferramentas de engenharia reversa que existem há anos, como o Ghidra (liberado pela NSA em 2019), o IDA e o Hopper. Se você ainda não sabe o que é MCP, explicamos neste artigo.
Integrações parecidas já existiam havia um ano. O mérito do REA foi deixar tudo fácil de instalar. E o próprio projeto é modesto na descrição: diz que não promete recuperar o código original nem clonar aplicativos automaticamente.
Os clones que viralizaram não eram o que pareciam
O caso mais famoso, o dos clones da Adobe, nem foi feito com o REA. Thomas diz que usou o Claude Code comum e proibiu a IA de abrir ou copiar o código dos programas originais. A IA só podia estudar o comportamento, as especificações públicas dos formatos de arquivo e a aparência. É a técnica clássica de "sala limpa", que existe justamente para não infringir direitos autorais.
E o resultado ainda é um protótipo. Os projetos estão marcados como alfa, arquivos com objetos inteligentes do Photoshop dão problema e só 5 de 30 testes de filtros batiam com o original. Um teste da MindStudio trouxe outro dado curioso: reconstruíram o mesmo app de Mac uma vez com o REA e outra só a partir de capturas de tela. Os dois funcionaram, e o das capturas de tela terminou primeiro.
| O que o feed dizia | O que aconteceu |
|---|---|
| "O software acabou" | Os clones existem, mas estão em fase alfa |
| "Clonaram a Adobe com o REA" | O clone foi feito sem o REA, olhando só o comportamento |
| "Usaram o Claude para abrir a TV da Samsung" | O pesquisador diz que usou o ChatGPT, que também o bloqueou |
| "A Anthropic matou o REA" | O REA continua lançando versões. Quem bloqueia é o filtro do modelo |
| "De repente a IA não faz mais" | A barreira foi anunciada em 6 de outubro, antes do hype |
O dia em que a IA começou a cortar a resposta
Em 21 de outubro, alguém abriu um tópico no Reddit com um título que resumia o humor geral: a Anthropic tinha matado o trem do REA em segredo. Usuários do Claude Opus 5.5 contavam que o modelo começava a investigar um programa, parava no meio da frase e não voltava ao assunto nem com a pergunta reescrita. O Kotaku repercutiu no dia 24, e no X um post sobre o tema passou de meio milhão de visualizações.
A Anthropic não anunciou nenhuma mudança no modelo. Mas também não precisava: a barreira já estava escrita. Em 6 de outubro, dois dias antes de o REA viralizar, a empresa publicou que seus modelos disponíveis ao público têm proteções conservadoras que bloqueiam a maior parte do trabalho de cibersegurança. Há relatos de bloqueios desse tipo em projetos de usuários desde julho. O que mudou em outubro foi a quantidade de gente testando a mesma porta ao mesmo tempo.
A tranca foi anunciada dois dias antes do hype começar. Quase ninguém leu o aviso.
A própria Anthropic publicou números. Num teste com 50 cenários de ataque em várias etapas, o modelo sem acesso especial foi bloqueado já na primeira mensagem em todos os 50. Para quem trabalha com segurança, existe um programa de verificação com níveis de acesso: o nível de defesa, que cobre engenharia reversa de malware, ainda teve 46 dos 50 cenários interrompidos em algum ponto.
E a OpenAI não é a saída fácil que alguns imaginam. O pesquisador da história da TV da Samsung, que virou símbolo do caso, diz que usou o ChatGPT e que também foi bloqueado no meio do trabalho, com uma etiqueta de "abuso cibernético". Os achados dele, aliás, ainda não foram verificados de forma independente.
Por que as IAs fecharam essa porta
Porque a mesma habilidade serve para os dois lados. A IA que ajuda uma equipe de segurança a entender um vírus ajuda um atacante a entender o seu sistema. Um estudo de maio mostrou que 87% dos aplicativos móveis monitorados sofreram ataques em 2026, e os autores apontam a engenharia reversa com IA como um dos motivos.
Os laboratórios escolheram fechar por padrão e abrir para quem comprova que é defensor. Dá para discutir se o filtro é sensível demais: há relatos de bloqueios em tarefas legítimas, como escrever um driver para Linux ou controlar um equipamento que a própria pessoa comprou. Mas a direção não é segredo nem novidade.
O que isso muda para a sua empresa
Tirando o barulho, sobram quatro coisas práticas:
- Se a sua empresa compra software, o seu poder de negociação subiu. Um clone em alfa não substitui o programa de verdade, mas muda o que o fornecedor consegue cobrar e as amarras que consegue impor.
- Se a sua empresa vende software, a pergunta é outra. O que um concorrente com IA não conseguiria refazer em três meses? Integrações, dados, suporte e confiança protegem mais do que a quantidade de telas.
- Se você planeja usar IA para entender um sistema antigo, planeje a barreira. Analisar código que é da sua empresa, com o fonte no repositório, está dentro do uso permitido. Abrir um programa compilado de terceiros pode parar no meio, mesmo com intenção legítima.
- "Foi a IA que fez" não serve de defesa. As regras sobre o que se pode fazer com o que se descobre continuam as mesmas, e muitos fornecedores estão endurecendo os termos de uso para proibir engenharia reversa assistida por IA.
Não era o que pensávamos
O REA continua no GitHub, atualizado. A capacidade dos modelos continua lá. O que mudou em outubro foi a quantidade de gente descobrindo, ao mesmo tempo, uma porta que já tinha tranca. Quem trabalha com segurança pode pedir a chave. Para todo o resto, vale olhar com calma antes de acreditar no próximo "o software acabou".
Se a sua empresa tem um sistema antigo que ninguém mais sabe explicar e você está pensando em usar IA para entendê-lo antes de migrar, me escreve. Vejo com você o que dá para fazer sem esbarrar nessas barreiras.
Fontes
- Expanding the Cyber Verification Program, Anthropic
- Is Software Really Dead? The Rise of AI-Powered Reverse Engineering, HackerNoon
- Why Is Claude Blocking Reverse Engineering?, Capital & Compute
- Claude's reverse-engineering capabilities may have been quietly nerfed, Kotaku
- AI Reverse-Engineering Wave Hits TVs, IoT Devices and Desktop Apps, Let's Data Science
- 87 percent of mobile apps hit by attacks, Digital Today
- Reverse Engineer Anything, GitHub




